O que pouco se fala sobre relacionamentos difíceis

*André Chediek

Você não está fugindo do outro. Está fugindo de você.

Tem uma crença muito confortável que carregamos e quase nunca queremos olhar para ela… a de que, se a relação é difícil, o problema está do outro lado.

E às vezes está, sim. Mas raramente só lá.

O que poucos falam, porque é desconfortável demais, é que o outro funciona como um espelho. Não no sentido poético que virou clichê nas redes sociais, mas num sentido muito concreto: o que nos incomoda, nos irrita ou nos paralisa numa relação quase sempre toca em algo que ainda não resolvemos dentro de nós.

Isso não é culpa, é estrutura humana. Reconhecê-la e nos responsabilizar por ela, é assumir a nossa liberdade. Lembrando que não somos culpados por aquilo que não temos consciência ou controle. Olhando assim, podemos nos responsabilizar sem precisar assumir uma culpa e nos martirizar com isso.

 

A fuga tem uma lógica

Quando uma relação começa a gerar desconforto, o impulso mais imediato é se afastar. Trocar de emprego, encerrar uma amizade, colocar ponto final em um casamento, evitar determinadas conversas, enfim, construir distância onde antes havia vínculo. 

E até existe alívio nisso. Temporário, mas real. O problema é que esse alívio tem prazo de validade, porque o padrão que ativou o conflito não ficou naquela relação, veio com você. E no próximo relacionamento, vai aparecer de novo. Com outro rosto, outro contexto, outra desculpa. Mas é o mesmo nó.

Em nossa vida, se algo segue se repetindo (mesmo que com outros atores) é o universo nos convidando a aprender, a responder diferente. Bert Hellinger afirmava: “Tudo que a gente exclui, a natureza inclui’’. Viktor Frankl tem uma célebre frase que deixou cravado um importante conselho, revelando praticamente um modus operandi:Se a situação é favorável, desfrute. Se a situação é desconfortável, tente mudá-la. E se não for possível mudar a situação, mude a si mesmo”. 

Considerando que não temos o direito de mudar o outro, sem que haja desejo, liberdade e escolha por parte dele, os temas interpessoais se tornam um convite para olhar pra dentro.

 

Enfrentar não é aguentar

Aqui mora um equívoco que precisa ser dito com clareza. Permanecer numa relação que faz mal não é enfrentamento, é outro tipo de fuga da decisão de ir embora. Enfrentar é diferente. É estar disposto a olhar para o que a relação está revelando sobre você, antes de decidir o que fazer com ela.

É perguntar: o que essa situação está ativando em mim? De onde vem essa reação? Isso é sobre o agora ou estou respondendo a algo muito mais antigo?

Esse movimento não é fraqueza, é o tipo de coragem que ninguém aplaude, mas que transforma de verdade, de dentro para fora.

 

O que fica quando você para de evitar

Quando paramos de evitar o desconforto relacional, algo inesperado acontece: começamos a nos conhecer com mais honestidade. Descobrimos onde ainda somos reativos, onde ainda pedimos permissão para existir e onde ainda confundimos cuidado com controle, ou silêncio com respeito. Em resumo, onde ainda dói. 

E é nesse encontro, muitas vezes áspero, raramente bonito, que algo real se transforma. Não a relação em si. Você.

Relacionamentos difíceis não são apenas obstáculos, mas, muitas vezes, os convites mais diretos que a vida nos faz para crescer. A pergunta não é se você vai enfrentar isso algum dia. É se vai escolher fazer isso agora ou esperar até não ter mais escolha.

Não pelo outro, por você.

 

Esses e outros tópicos são abordados e desenvolvidos em nossa Formação Continuada. Durante o acompanhamento, passo a passo, são criados espaços de integração desse conhecimento, transformando os conteúdos em experiências. 

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*André Chediek é fisioterapeuta osteopata, Somatic Experiencing Practitioner (SEP), constelador familiar sistêmico e coordenador acadêmico da 5LB Brasil. Estuda as 5 Leis Biológicas há mais de 15 anos.

 
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