
Eu fico aqui ouvindo essa palavra o tempo todo e outro dia resolvi prestar mais atenção no que o Roberto quer dizer quando fala dela, pede saúde, se preocupa e faz um monte de coisas em nome dela. Confesso que estava começando a ficar até com um pouco de ciúmes!
Mas aí, comecei a ver que, na verdade, essa é uma definição criada por vocês para quando as coisas estão indo bem aqui por dentro, certo? Aaaah, que fofo ele, se preocupando comigo. Olha eu aqui fazendo mau juízo do Roberto de novo! (risos) Gente, me desculpe, mas é que gato escaldado tem medo de água fria.
Depois de entender melhor, comecei a refletir que essa definição, pelo menos a que ele ouviu e aprendeu quase a vida toda, poderia ser também uma fonte de alguns de nossos desencontros, porque ela parece ser não “incorreta”, mas incompleta, pelo menos do meu ponto de vista aqui de dentro. Mas vou tentar explicar isso um pouco melhor.
Lembrando sempre que eu não quero convencer nem você que está aqui lendo meu desabafo, nem ninguém, sobre o que é certo ou errado na relação entre você e meu parceiro de trabalho (seu corpo), mas algumas coisas eu preciso botar pra fora, pelo meu bem e do Roberto. Se nesse caminho eu ainda puder ajudar alguns colegas de profissão e seus “Robertos”, por que não?
Bom, voltando ao meu desabafo: primeiro vou tentar esclarecer que essa ideia que o Roberto tem de “Saúde”, parece ser uma busca incessante por simplesmente não ter sintomas, não ter desconfortos e fazer tudo para que tudo fique bem por aqui. Sim, na teoria isso realmente parece ótimo, um verdadeiro conto de fadas, mas deixa eu te contar uma coisa: isso é impossível!
Nossa, agora talvez você tenha pulado da cadeira, subido nas tamancas: — “Ah, como assim, impossível?! É só comer bem, fazer exercícios e seguir todas as recomendações dos amigos da Saúde (e agora entendo melhor esse termo que eu mesmo criei, rs) e também daquela blogueira ou do influenciador que têm dicas ótimas, afirmando que podemos ter saúde sim!” Afff! Às vezes, eu me canso, viu?
Sim, claro! Os amigos da saúde têm e talvez até alguns desses blogueiros tenham ótimas dicas e recomendações que podemos seguir. Talvez não todas, mas pelo menos as que fizerem sentido para você. Mas, evitar e brigar com meus sinais aqui a qualquer custo, seria como pedir que eu fosse mudo, seria como silenciar minha ligação com o Roberto, seria como apagar o farol no meio da estrada escura!
— “Ah, mas então você quer dizer que não precisamos buscar a “Saúde”? Nãooo, não é nada disso! Acabei de falar, acho fofo essa preocupação do Roberto comigo! O que precisamos é, talvez, rever essa ideia.
Pensa comigo: Quantas pessoas você conhece, ou até mesmo você, que se preocupam 100% do tempo com a saúde? Que comem bem, fazem exercícios, meditam, fazem terapia, daquelas que não fazem um xixizinho fora do penico? Pensou? Tá ok, tão regradinhas assim, não são tantas, eu sei (risos), mas eu também exagerei um cadinho pra ajudar no meu argumento.
Mesmo essas poucas, mais regradas, elas não ficam doentes? Às vezes até com sintomas graves. E aposto que também conhece casos de pessoas realmente consideradas MUITO “saudáveis” que infelizmente morrem cedo, sem uma explicação razoável (dentro desse raciocínio de vocês). Como será que elas, mesmo seguindo tudo certinho, acabam “doentes”?
E aí, como ficamos? Ah, mas é azar! É um castigo divino, é mandinga, “chegou a hora dela”, sei lá. Claro, se o que eu estou falando não faz sentido para você, vamos achar um milhão de outros argumentos, mas o ponto que quero trazer aqui é: Não podemos viver sem sintomas! Simplesmente porque eles são parte importante das minhas conversas, dos meus alertas sobre o que está acontecendo aqui dentro, onde está acontecendo e, às vezes, dão uma boa ideia do que precisa ser feito. Basta estar atento e presente para escutar.
Não ouvir o que eu, aqui de dentro, da área VIP, desse lugar privilegiado, tenho a dizer, seria como navegar sem bússola, sem um mapa ou, na melhor das hipóteses, com um mapa ruim, incompleto e impreciso. E não temos muitos “anestesiados” por aí?
“Ah, mas então você quer que o Roberto sofra? Quer dizer, então, que não devemos comer bem, nem fazer exercícios, que nada disso adianta?”
Ahhh, Jisuuus! Claro que tudo isso é importante e me ajuda demais a reparar as coisas por aqui. E esse é exatamente o ponto: daqui de dentro, a minha impressão é que todas essas recomendações deveriam ser um apoio, recursos para lidar e ajudar o Roberto quando preciso reparar alguma coisa aqui. E não uma arma contra, não uma maneira de simplesmente tapar o ouvido para o que estou tentando dizer.
E isso não é novidade, tá? Não estou aqui reinventando a roda. Tem muita gente falando disso por aí. Basta abrir um pouco a cabeça e o coração. ❤️
Um outro ponto que acho importante falar é sobre essa mania de querer terceirizar 100% essa busca pela tão almejada “saúde”. Com certeza você já falou ou já ouviu essa frase que o Roberto adora repetir, principalmente pra puxar conversa fiada na fila de alguma coisa: “Ahh, saúde é o que importa, o resto a gente corre atrás”.
Sempre que escuto isso, parece que você tem responsabilidade por todas as outras coisas, e vai correr atrás delas, mas a tal da Saúde, que você preza tanto, você deixa pra Deus, pra sorte, pra comida ou para aquele amigo da Saúde que vai dar um jeito em você!
Ah, minha gente! Essa é outra ideia que, não sei para você, mas daqui de dentro faz muito pouco sentido. Esquece isso! Essa parada é entre eu e Roberto, não tem como fugir desse nosso bate-papo diário, dessa conversa franca. Já brincou de telefone sem fio? Então, chega uma hora que sempre dá M. Uma hora a mensagem vai chegar truncada, incompleta e é aí que mora o perigo.
Então, de novo, não é sobre fazer tudo sozinho e nunca mais procurar seu amigo da Saúde, não tomar remédio, não se alimentar bem etc. O convite aqui é para assumir essa responsabilidade sobre o que acontece aí dentro de você, no seu corpoo, é ser parceiro, sentir.
É dizer: Bora, tamo junto nessa! E não achar que vai chegar no consultório e dizer: “Doutor, troca aí esse ombro por outro que preciso trabalhar. Passo aqui amanhã!” – “Oh, não sei porque isso acontece comigo, se vira você aí com meu corpo pra saber e resolve isso pra mim!” Esquece isso! Não parece, mas sou tímido, sou um bicho do mato, não saio por aí falando com qualquer um. É como dizem: — ”Aqui o papo é reto, não faz curva”. (risos)
Sim, precisamos dos amigos da Saúde. São eles que vão ajudar e mostrar os caminhos, vão apresentar recursos e possibilidades, mas no final quem sabe, somos nós! Essa decisão é nossa! Mata essa no peito e bora jogar esse jogo juntos!
Outro dia aquele amigo da saúde que falo muito por aqui, o André Chediek, trouxe um ponto muito interessante que pode ajudar você a refletir também: um dos prováveis resultados dessa batalha contra os sintomas, esse olhar de medo para os meus sinais é que chega uma hora que de tanto você tentar, você acaba tendo dificuldade de me ouvir., E vale lembrar que as sensações são sensíveis porque espera-se que a gente as sinta.
Mas já parou pra pensar que quando você se anestesia pro desconforto, quando você ignora os meus recados, você tem dificuldade em SENTIR e perceber as coisas boas também?
Ah tá! Você achava que eu só mandava recado quando a coisa está ruim, quando o bicho está pegando? Poxa, pera aí né? Eu sou gente boa, tá? Olha você agora fazendo mau juízo de mim!
Sabe aquele frio na barriga que você sente quando está com aquela pessoa que você ama? Aquela sensação boa quando está na natureza, na praia ou com seus amigos ou família rindo e se divertindo? É, esse sou eu também, conversando com o Roberto e mostrando pra ele que aquilo ali nos faz bem e devemos fazer mais vezes.
Evitar os sinais e sintomas a todo custo, viver com medo de sentir o desconforto, é se fechar para mim, é se fechar para sua Biologia, é se fechar para vida!
Sim, eu sei, essa anestesia não é por escolha dele.Tem coisas que eu mesmo, pra me proteger e proteger o Roberto, faço um esquema aqui dentro para ele não sentir, porque naquele momento é demais pra gente. Porém, passado o momento crítico, podemos visitar a experiência. Quando já estamos fora de perigo, poder processar o que aconteceu é muito importante.
E sabe o que é mais legal? Podemos aprender e treinar maneiras de como ampliar nossa intimidade com o sentir. São muitas as possibilidades, desde que você considere a importância de atravessarmos as experiências que vivemos, sentindo cada uma delas, e, de preferência, com alguma companhia que te traga segurança..
Outro dia, o Roberto viu um vídeo do André, muito bom, que falava exatamente sobre isso, e ele disse uma frase que ficou aqui guardada:
“…É lindo poder sentir tudo que a vida oferece. E a possibilidade de se conectar com a vida é se conectar com toda a amplitude dela.” ❤️ “
Eita que até me arrepiei!
Precisamos repensar, precisamos olhar com outras lentes. A Saúde não precisa significar a ausência total de “doenças”, não precisa ser essa luta contra os sintomas, mas talvez a ideia seja buscar maneiras e recursos para lidar, sustentar e principalmente aprender com eles. É como diz o André e o pessoal do SE –método Somatic Experiencing® – outra dessas maneiras lindas que existem de me ajudar por aqui –: precisamos criar continente para lidar com os desafios que inevitavelmente vão aparecer em nossas vidas.
Eu vou até mais longe: precisamos olhar para nossos sintomas com carinho, com responsabilidade, precisamos abraçá-los amorosamente.
Tá aí! Acho que vou lançar uma nova campanha! Depois de adote um filhote, vem aí #abraceseusintoma. Se seu corpo (eu e meus amigos) estamos falando e você ouvindo, significa que estamos vivos! Bora espalhar essa hashtag por aí. É, tá pensando o quê? Eu também tô ligado nas redes sociais – risos!
E aí, fez sentido pra você? Será que não vale a pena pelo menos uma reflexão? Então dá cá um abraço e vamos juntos repensar isso! Se não faz sentido, me conte, gostaria de ouvir seu ponto de vista também e podermos conversar sobre isso.

Se você está chegando aqui nesse texto agora, antes de mais nada, seja bem-vindo! É importante saber que Ele faz parte de uma série de textos narrados em primeira pessoa pelo corpo do Roberto, pelo seu “animal interno”! Ah, um aviso: Esse texto pode conter pitadas de humor e ironia 🙂 – Para ler os outros “desabafos” da série, é só clicar aqui.
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